“Conta-se que um matuto possuía na gaiola dois belíssimos canários, dos quais um ficava o tempo todo quietinho, sem sair do lugar e sem emitir nenhum som, enquanto que o outro cantava e alegrava o ambiente durante horas a fio!
Até que apareceu um “cumpadre” que queria comprar a ave cantora a qualquer preço, mas somente o passarinho que cantava. Ao que o matuto respondeu que só venderia se fossem os dois juntos e com a gaiola! De outra forma, nada feito!!
– Mas, por quê, ocê só vende os dois?!
– É porque aquele que está quietinho alí no seu cantinho é que compõe o que o outro está sempre a cantar… É o Compositor!!”
Roberto Stanganelli
Mato Grosso, 1978. É madrugada de domingo e Zacarias Mourão caminha pensativopelo centro histórico de Cuiabá, passa pela rua do meio, de baixo, beco do candeeiro… relíquias do período colonial. Amanhece quando chega até a Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito que para ele, é assim como todo o seu Mato Grosso: simples por fora e riquíssima por dentro – o ouro reluz! A Lei Complementar nº 31 de 11 de outubro de 1977 criou um novo estado, mas a divisão só seria concretizada, de fato, em 01 janeiro de 1979. Nortistas chiam, sulistas comemoram, mas para todos, excetuando-se a Escola Superior de Guerra, é uma surpresa. Vespasiano também teveseu Estado de Maracaju na Revolução Constitucionalista de 1932 em apoio à causa paulista porém, findadas as agitações e suprimida a revolução, o movimento encontrou ecos quase que silenciosos através da Liga Sul-mato-grossense, suprimida por Vargas, evitada por Jânio e renegada por Rondon. Naquele instante não era o caso, pois a divisão sacramentava-se sem que ao menos um único mato-grossense tivesse sido consultado, foi imposta… ditada. Zacarias sabia disto e assim como o estado, dividido tornar-se-ia seu coração.

Após percorrer o centro cuiabano, dirige-se à recém criada TV Brasil Oeste para cumprimentar o amigo “Compadre Crispim”, que tendo comandado programas na Rádio Cultura e na Rádio “A Voz D’Oeste”, oferecia há 2 anos aos cuiabanos o programa de auditório “Chora Viola” com destaque à música sertaneja de raiz e à cultura cuiabana. Goiá, seu parceiro e amigo, o espera nos bastidores do programa (ao vivo) e terminadas as apresentações seguem ao sul de Mato Grosso.

Com a rainha do meu destino fui conhecer o jardim de Alá
Onde nas cores das madrugadas ainda canta o sabiá
Tardes morenas de Mato Grosso a paz do mundo achei por lá
Árvores lindas e bem cuidadas
Soltando flores amareladas sobre as calçadas de Cuiabá
Domingo triste da despedida chora viola lá no “Crespim”
Deixei o Mato Grosso querido, mas pela Deusa chorando eu vim
Eu fiz pra ela um simples verso, o universo sorriu pra mim
Minha viola brilhou nos campos
Devido aos bandos de pirilampos nos verdes campos lá de Coxim
Goiá e Zacarias Mourão são parceiros mais que amigos, irmãos. A primeira composição que fizeram juntos foi “Amada Ausente”, gravada em 1957 (Columbia , 78 rpm) pelo Duo Estrela Dalva (Itamy e Nair), quando Zacarias era então produtor daquela que viria a ser sua segunda esposa, Itamy. A “garota mágica dos teclados” e sua parceira ainda seriam responsáveis por comporem juntos “Juriti Mineira”, “Amor e felicidade”, “Índia Soberana” e “Pecado Loiro”. A dupla de poetas no final dos anos 70 formava o que o meio sertanejo considerava como tripé da música caipira, pois eram quem mais emplacavam sucessos e acima de tudo, representavam em suas composições regiões tidas como a essência do Brasil Caipira: Minas Gerais (Goiá, Coromandel), Mato Grosso (Zacarias Mourão, Coxim). A última perna do trio seria São Paulo (José Fortuna, Itápolis). Em 1955, seu primeiro ano de morada na “pauliceia desvairada”, Goiá comporia sua música mais famosa – considerada o hino da música sertaneja – “Saudade da minha terra”. A maior parte de suas composições remete a Coromandel, sua infância e a saudade do sertão. Não é diferente com Zacarias Mourão e Coxim, José Fortuna e Itápolis. “Canta a tua aldeia e serás universal”.
Após despedirem-se de Crispim, decidem homenagear o amigo e dedicador incansável da boa música brasileira com uma música que o mencionasse e aludisse aquela viagem. Seguem rumo a Campo Grande pegando a BR 163 e percorrem um trecho de aproximadamente 700km recém-pavimentado pelo governo militar, iniciado em 1971 e concluído em 1976. A estrada fez parte do Plano de Integração Nacional do governo e foi avaliada em 600 milhões de cruzeiros; durante seu processo de construção muitas cidades foram fundadas as suas margens (Lucas do Rio Verde, Sinop e Peixoto de Azevedo). Até hoje a rodovia não está completamente pavimentada, faltando cerca de 90 quilômetros no estado do Pará.

Chegando em Coxim, terra natal de Zacarias, pernoitam no Hotel Sinhozinho onde a baiana Geny Nunes da Rocha prepara um locro paraguaio especial ao filho mais ilustre da terra. Pela cidade ainda notam-seestragos da enchente mais devastadora de sua história, um ano antes. Visitam o Pé de Cedro e Zacarias comenta que se não tivesse levado para Goiá, talvez a composição não atingisse tamanho sucesso. A composição foi primeiramente registrada como “Meu Pé de Cedro” apenas por Zacarias Mourão e chegou a ser gravada primeiramente por Ninico&Senin em 04 de fevereiro de 1963 (RCA Camden, 78rpm), porém a melodia não agradou a Zacarias, que levou-a a Goiá que modificou-a para polca, sendo então regravada por Tibagi & Miltinho, atingido estrondoso sucesso e tornando-se inclusive através de decreto e lei de 1977, hino da cidade de Coxim.
Primeira gravação da música “Meu Pé de Cedro”: https://www.youtube.com/watch?v=s2ln0vbLbS8

Uma leva de migrantes chega, embalados pelo progresso, a todo Mato Grosso e em Coxim não seria diferente. Por outro lado, o esgotamento das colônias promovidas por Sylvio Ferreira e o escasso acesso ao crédito associado ao êxodo rural fez com que a cidade experimentasse seus primeiros bolsões de pobreza. Uma imensa área de terra é ocupada por moradores oriundos das colônias dando origem ao “Grilo”. Comissões especiais parlamentares são instauradas e arrastam-se por anos até a regularização fundiária do local, que hoje contempla os bairros mais populosos da cidade – Marechal Rondon e Senhor Divino.
Após pernoitar, seguem com destino à futura Capital Morena. Passam pela região da Ponte Vermelha e ali já surgiam os primeiros experimentos em soja. Alguns anos antes cafezais inteiros haviam sido destruídos por geadas, não vingando. Contudo, alguns anos depois as pastagens seriam definitivamente substituídas por lavoura.
A novo aurora tão radiosa aconteceu e segui além
Em Campo Grande passei pensando por que será queamo outro alguém
Mas um amor assim repentino às vezes vale por mais de cem
Tratei do modo tão caprichoso
Aquele lindo rosto formoso, olhar manhoso de quem quer bem
Chegando em Campo Grande, Goiá mostrava sinais de débil saúde. Desde 1971 travava uma luta voraz contra a diabetes e um duro diagnóstico de cirrose hepática – associação perversa que a cada dia o fragilizava ainda mais. Tinha apenas 43 anos de idade. Conforme prometido, a dupla chegando em Campo Grande finalizou a composição que serviria de homenagem ao amigo da capital cuiabana. Seguiram a São Paulo, mas ao aproximarem-se da paulistinha do coração, o estado de saúde do compositor mineiro piora e o mesmo é levado ao Hospital dos Servidores em estado grave. Com recursos financeiros limitados, Zacarias, para custear as despesas do amigo, decide vender sua parte na composição e oferece-a ao amigo Valderi, da dupla Valderi& Mizael. Os mesmos haviam atingido destaque com o LP “O Divórcio”, gravado em 1977 pela Gravadora Uirapuru/CBS, com destaque para as músicas “Espinho na Cama”, “Caminhando pela vida” e “O Carro e a Faculdade” e precisavam de composições para um segundo disco. Negócio feito, Zacarias utiliza o dinheiro para ajudar no custeio das despesas de Goiá, que após ter alta segue as Minas Gerais para melhor reabilitação.
Adeus rainha mato-grossense não sei se foi meu bem ou meu mal
Só sei que nunca em minha vida eu conheci outro amor igual
Adeus gatinha tão carinhosa estátua viva escultural
Adeus menina de fala franca
Que tem a graça beleza e panca da garça branca do pantanal!
A música seria mais um sucesso de Zacarias Mourão que não levaria seu nome, tendo sido gravada por Roberta Miranda, Liu & Léo, Sérgio Reis, Nalva Aguiar, Alan e Aladim e Duo Ciriema, dentre outros.
Oficialmente, a última composição que ambos fizeram juntos foi “Vinte Anos de Silêncio”. Gerson Coutinho da Silva, o Goiá, faleceu em Uberaba aos 46 anos e 9 dias, no dia 20 de janeiro de 1981, sendo sepultado em Coromandel, sua terra natal. Sobre seu túmulo paira a sombra de um Pé de Cedro, em sua homenagem.

Referências Bibliográficas
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Holland, Carolina. http://g1.globo.com/mato-grosso/noticia/2013/10/arquivo-publico-de-mt-tem-poucos-documentos-sobre-divisao-do-estado.html G1 Mato Grosso. Arquivo Público de MT tem poucos documentos sobre divisão do estado. 11 de outubro de 2013. Acesso em: 15/09/2018.
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http://immub.org/Instituto Memória Musical Brasileira. Pesquisa de fonogramas. Acesso em: 15/09/2018.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_de_Nossa_Senhora_do_Ros%C3%A1rio_e_S%C3%A3o_Benedito_(Cuiab%C3%A1)Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Acesso em 15/09/2018.
http://www.boamusicaricardinho.com/comppoet_23.html#goia Boa Música Brasileira. Compositores e Poetas da Música Caipira Raiz: Goiá. Acesso em: 15/09/2018
http://www.coxim.ms.leg.br/leis/legislacao-municipal/leis-ordinarias-1/registro-geral-das-das-leis-ordinarias-municipais.pdf Câmara Municipal de Coxim. Registro Geral das Leis Ordinárias Municipais. Acesso em: 15/09/2018.
http://www.gazetadigital.com.br/conteudo/show/secao/3/materia/1959/t/cuiaba-se-despede-do-seu-apresentador-mais-antigo Gazeta Digital. Cuiabá se despede do seu apresentador mais antigo. Domingo, 01 de junho de 2003. Acesso em: 15/09/2018.
https://www.recantocaipira.com.br/duplas/zacarias_mourao/zacarias_mourao.html Recanto Caipira. Zacarias Mourao. Acesso em: 15/09/2018.
https://www.youtube.com/watch?v=cAnsMZMSZYoYoutube: Compadre Crispin Documentário. Postado por Meire Pinheiro. Acesso em: 15/09/2018.
Reis, Francisco Marcos. Memorial Goiá: o poeta anda vive / Francisco Marcos Reis – Uberaba, MG: Guri Produções Artísticas e Culturais, 2009. 92p.
Sobre o autor:
Fernando Henrique Fontoura
Escreve aos domingos no Coxim Agora
Médico, escritor (crônicas e história regional), genealogista da Família Fontoura, apaixonado por cães, chamamé e por Coxim (um pouquinho menos do que o Tio Ica e o Dr. João Olegário).
Fernando Henrique Fontoura
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