Na coluna ‘Histórias Naturais’ o biólogo Luciano Lima fala como a proximidade da primavera muda rotina das espécies.
Você já observou uma ave construindo um ninho? Pois saiba que estamos em um período ótimo para ver essas cenas de perto. Nós estamos nos aproximando da primavera e a chegada da nova estação representa o período reprodutivo para muitas espécies aladas. O História Naturais dessa semana traz curiosidades sobre as construções dos ninhos, a funcionalidade e até indícios de como isso tudo começou na natureza.Há alguns dias eu estava caminhando pelo meu quintal aqui na Serra da Bocaina e encontrei um pequeno milagre. A altura dos olhos, em uma arvoreta de candeia, lá estava um ninho de passarinho. Vazio e já um pouco desgastado, era uma remanescente da última temporada reprodutiva, um berço abandonado. Pequeno e em formato de taça, era feito de raízes bem trançadas com alguns fios do musgo barba de velho. Pelo tamanho, formato e materiais utilizados desconfiei que fosse um ninho de coleirinha, mas me coloquei a admirar essa delicada obra de arte sem me preocupar com o artista.
Mais de 20 anos como observador de aves e ainda não me acostumei a apenas “ver” um ninho. Sempre que encontro um sou tomado por aquele sentimento que um dia inspirou alguém cunhar a expressão “maravilha da natureza”. Passo algum tempo admirando e sempre me pergunto “como pode um animal sem utilizar mãos, costurar raízes, musgo, palha, penas e outras tantas matérias primas e criar estruturas dignas de terem sido feitas pelo mais talentosos artesãos?”
Embora algumas espécies utilizem ninhos como dormitórios e também no ritual de conquista de um parceiro, sua principal função é dar abrigo e proteção aos ovos e posteriormente aos filhotes, mas nem todas as aves constroem ninhos com estruturas elaboradas. Algumas nidificam (sim, existe um verbo para isso) em pequenas depressões sobre o próprio solo, como o quero-quero (Vanellus chilensis), outras preferem cavidades. Os pica-paus escavam seus próprios ninhos na madeira, os surucuás em cupinzeiros arborícolas, e os barranqueiros… Adivinha, ele não recebeu esse nome por acaso.
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Ninho de beija-flor-de-banda-branca protegido por folha correu o mundo através das redes sociais — Foto: Bianca Caroline Soares/VCnoTG
Muitas espécies aproveitam ocos de árvore e outras cavidades naturais, ou “reciclam” ninhos de outras espécies, como o do joão-de-barro (Furnarius rufus), que talvez possa ser considerada a espécie mais generosa do mundo das aves, pois após utilizar seu “famoso” ninho por uma única vez o deixa vago para ser ocupado por dezenas de outras espécies, não apenas de aves, mas também de mamíferos, répteis e até mesmo insetos.
Já os ninhos com estruturas mais elaboradas variam não apenas nos materiais utilizados, mas também, no local e forma de posicionamento e no formato. Em forma de taça, plataforma, bolsa, aberto, fechado… Os ninhos são tão diversos quanto as próprias aves. Apesar disso, costumam ser um indicador de parentesco entre as espécies, ou seja, representantes de um mesmo grupo, como gênero ou família, costumam ter ninhos parecidos.
Falando em parentesco… Embora o ovo “com casca” (ovo amniótico se você quiser falar em biologuês) tenha vindo muito antes da galinha, algo em torno de 300 milhões de anos atrás. As evidências disponíveis até o momento indicam que construção de ninhos mais elaborados tenha sido uma invenção das aves. Com exceção delas, os outros grupos de animais que se reproduzem por meio de ovos com cascas, ou enterram os ovos no solo (como as tartarugas), ou os cobrem com material vegetal, cuja decomposição ajuda a aquecê-los (como os jacarés e crocodilos), ou ainda os depositam em alguma cavidade natural (como alguns lagartos).
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Registro raro: casal de pica-pau-dourado foi flagrado no ninho — Foto: Jailson Souza/VC no TG
Praticamente não existem informações sobre os ninhos de outros dinossauros voadores além das aves (isso mesmo, as aves são os últimos dinossauros viventes, para saber mais veja essa matéria do Terra da Gente). É possível que a construção de ninhos mais elaborados tenha começado já com outros grupos de dinossauros, mas ainda não sabemos. Por outro lado, o ato de chocar os ovos com o próprio corpo, um outro comportamento típico das aves, claramente já estava presente em outros dinossauros. Embora raros, são conhecidos alguns fósseis de dinossauros que morreram enquanto estavam sobre seus ninhos no solo incubando os ovos.
Os ninhos materializam uma das características da natureza, pequenos passos, como carregar uma pouquinho de barro no bico, capazes de criar fenômenos complexos, como o incrível ninho do joão-de-barro. A primavera vem chegando e já comecei a ver algumas aves aqui no meu quintal carregando materiais para construírem seus ninhos. A palavra milagre tem sua raiz no latim, “miraculum”, do verbo “mirare”, que significa maravilhar-se. Aproveite a chegada da temporada reprodutiva para maravilhar-se com mais esse milagre da natureza.
*Luciano Lima é biólogo e faz parte da equipe do Terra da Gente.
Ninho de ave flagrado no quintal do biólogo Luciano Lima. — Foto: Luciano Lima/TG
Por Luciano Lima, Terra da Gente
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