Por Ana Paula Yabiku, Barueri, SP
Cansada de “segurar a barra” por ser a primeira transexual a disputar a Superliga feminina de vôlei, a oposta Tifanny Abreu, do Vôlei Bauru, descartou a criação de uma liga exclusiva para trans, mas apontou o sistema de cotas como uma solução para evitar a exclusão de atletas que vivem na mesma situação que ela.
A ideia é adotar o mesmo esquema já utilizado com jogadores estrangeiros e olímpicos para equilibrar as competições. Funciona assim: cada atleta possui uma pontuação no ranking geral e os times precisam respeitar uma meta de pontos na hora de montar os seus elencos, evitando que reforcem as equipes de modo desigual.
“Nós temos cotas para jogadoras estrangeiras e por que não uma cota para jogadoras trans? Nós temos pontuação para uma jogadora olímpica e por que não uma pontuação para jogadoras trans? Se ela for boa o suficiente, vai ter a sua pontuação. Se ela não for boa, vai ter a sua cota”, Tifanny.
Para Tifanny, ao invés de incluir, a proposta de criar uma liga apenas para transexuais acaba por excluir ainda mais os atletas desta condição do esporte.
– Não tem trans suficiente para jogar, não tem lésbica suficiente para jogar, não tem gay suficiente para jogar uma liga forte. Nós vivemos em uma comunidade com todos juntos, é a única forma de vivermos todos em paz.
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Tifanny: não existem atletas trans suficientes para criar uma liga forte (Foto: Emilio Botta)
Voz ativa
Diante da polêmica envolvendo torcedores e outros profissionais contrários à liberação da atleta, como a campeã olímpica Tandara, a oposta garante que não se abala e, se um dia precisar deixar o vôlei, vai continuar lutando pelos direitos dos transexuais.
– Quando a empresa quebra, cada um vai buscar um novo trabalho e eu vou ser igual. Se um dia mudar a lei, eu vou buscar uma forma diferente de trabalhar. Posso trabalhar com a comunidade trans, que necessita muito de alguém ali, com voz ativa e, como eu consegui essa voz, posso estar com as meninas que precisam.
Apesar de estar sob os holofotes a cada fim de jogo e ser alvo de críticas o tempo todo, Tifanny conta que não se sente discriminada nas ruas. Além de ter uma torcida própria, a situação da jogadora é defendida por atletas de peso, como a líbero Fabi e a central Thaísa.
– No ínicio da transição, a gente sofre muito preconceito, mas depois de um tempo acaba acostumando, as pessoas acabam te aceitando e fica mais fácil de viver. Acho que as pessoas me olham com outros olhos e eu espero que não olhem somente para mim, por estar na mídia, mas para todas, porque somos todas seres humanos e todas merecemos respeito – completa.
Possível convocação
Por outro lado, se tudo der certo, Tifanny pode estar perto de uma convocação para a seleção brasileira de vôlei. O assunto irritou o técnico José Roberto Guimarães, que viu de perto a atuação da jogadora na partida da última sexta-feira, quando o Bauru foi derrotado pelo Barueri no tie-break.
– É sempre bom você mostrar trabalho, ainda mais para o técnico da seleção, porque a gente também não descarta uma possibilidade de estar na seleção. Então, eu vou estar fazendo o meu melhor e, se um dia eu estiver na seleção, espero ajudar – completa a oposta.
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Zé Roberto viu de perto a atuação da oposta na última sexta-feira (Foto: Emilio Botta)








