Há dias que em nossa casa vivíamos um clima de tristeza. Eu sofria muito, mas não queria contrariar meu pai que sonhava em fazer de mim um baita dum jurista e político. Eu tinha certeza que longe de Figueirão, iria sentir a falta de meus irmãos e irmãs, meus colegas de infância, da Escolinha Rural Mixta, das arapucas, pescarias, dos banhos no “Corgo” do Mato e Sucuri, da liberdade e do colinho da mamãe com suas mãos grossas, encardidas e calejadas alisando meus cabelos e rosto. De vez em quando o silêncio era quebrado com os soluços da minha mãe que pouco vinha se alimentando e dormindo por minha causa. Um certo dia estava eu pescando no “Corgo” do Mato, quando ouvi o barulho de um caminhão e em sequida um grito rouco: meu filho, o caminhão do Juca chegou. Corri pra casa, mamãe estava em pranto, me troquei de roupas, papai já estava com nossas malas na mão, minha mãe deu-me um longo abraço, senti seu pranto quente escorrendo em minha face, sem voz para despedirmos, seus braços foram se afrouxando devagar. Ouvi seus passos se distanciando, limpei as lágrimas e a vi em direção do “Corgo”. Estava fugindo para não me ver sair. O caminhão deu a partida e seguimos.Viagem penosa, o ajudante Bento Preto ia consertando a estrada e nós passageiros misturados com a carga de arroz e vasilhames de bebidas, desviando dos galhos de árvores que em alguns trechos pendiam sobre a estrada. Eram umas 14 horas quando saímos de Figueirão, o ponto de jantar foi na pensão do seu Belchor, na Cachoeirinha e o pouso tardio no Hotel Serra Negra do seu Saturnino em Camapuã. Chegamos em Campo Grande a tarde, estava chuvendo e nós embaixo da lona todos sujos. Por uma pequena abertura brecha olhei e percebi que estávamos chegando. Ouvi a voz do Brasilino dizendo: Já é Campo Grande, esta é a avenida Mato Grosso e este negócio preto aí Admar, é asfalto. Novamente chorei, parece-me que havia deixado o pequeno e ererno céu da minha vida.
Professor Admar.
Historiador figueirãoense.








