Ao desenvolver um método para conservar o caldo de cana, João Víctor descobriu que a técnica também seria capaz de inativar o Trypanosoma cruzi, protozoário presente no barbeiro, inseto causador da doença de Chagas que, entre 2008 e 2017, provocou a morte de cerca de 4,6 mil pessoas por ano no Brasil.
O estudo chamou a atenção da Fiocruz, que está fazendo os últimos testes para verificar a eficácia do método
Em Abu Dhabi, a pesquisa é a única representante da região Centro-Oeste do Brasil na MILSET Expo-Sciences International 2019, evento com a participação de mais de mil projetos de pesquisa de 60 países.
A feira, teve início no domingo (22) e terminou no sábado (28)
João Víctor relata a experiência de ser “vizinho” de estandes da Rússia, de Portugal e de tantas outras nações.
“O que mais tem me fascinado é que eu consigo ver os problemas de outras realidades e como os cientistas estão indo atrás de soluções. Todos aqui falam a mesma língua, a ciência, e isso é muito gratificante. Estou aprendendo muito, principalmente na área de microbiologia. Nunca participei de algo tão intenso”, comemora o estudante.
A pesquisa foi destaque até na última edição do Fantástico
O Fantástico mostrou porque o então adolescente resolveu estudar uma forma de conservar o caldo de cana e a trajetória do estudo até o momento.
História
Em 2016, quando cursava o ensino médio na Escola Estadual Viriato Bandeira, em Coxim, João Víctor e os colegas foram “desafiados” pelo professor de Química, Lucas Gandra – que se formou no IFMS – a encontrar a solução de problemas da sociedade.
Na época, o estudante convivia com um problema vivido diariamente pelo pai, vendedor de caldo de cana. “Meu pai tinha que colher a cana todos os dias para moer porque não havia como conservar o caldo produzido, e o caldo que sobrava não podia ser aproveitado, o que gerava um grande desperdício do produto”.
Sem laboratório para fazer as análises químicas e biológicas, a escola fez uma parceria com o IFMS, que cedeu espaço e equipamentos para que o estudo fosse realizado. João Víctor e a então colega, Maria Eduarda Gobbi Pereira, desenvolveram uma técnica nos moldes da pasteurização capaz de conservar o caldo de cana.
“Depois de dois anos de testes, chegamos às temperaturas e tempos ideais. Primeiro, é preciso aquecer o caldo de cana a 90 graus por cinco minutos e, imediatamente em seguida, o produto deve ser resfriado em banho de gelo, a aproximadamente 7 graus. A técnica mantém a qualidade do caldo por até 20 dias e pode ser desenvolvida pelo próprio vendedor”, detalha João Víctor.
Em uma segunda fase da pesquisa, os estudantes passaram a receber a coorientação de Aline dos Santos Garcia Gomes, professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e pesquisadora conveniada da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz).
João Victor passou 15 dias na capital do Rio de Janeiro onde, nos laboratórios da Fiocruz, verificou que o tratamento térmico poderia também inativar o protozoário causador da doença de Chagas no caldo de cana.
“O próximo passo será fazer análises sensoriais e em camundongos para certificar esse resultado e publicar a pesquisa. A ideia, futuramente, é produzir uma cartilha com linguagem simples para que o vendedor do caldo de cana possa aplicar o método e distribuir esse material em áreas endêmicas da doença”, esclarece o estudante.
Pelo caminho trilhado até aqui, João Victor só tem a agradecer. “Somos um somatório de pessoas, vivências, experiências, e eu não teria chegado até aqui sem minha família, amigos, professores, orientadores e apoiadores. Sou muito grato a todos os docentes que me apresentaram a ciência”, finaliza.
Fonte: IFMS – Juliana Aragão












