Vovó Jesuína era a maior parteira do Sertão de Figueirão. Quando meus pais chegaram aqui em 1935, este causo ainda percorria pelas rodinhas de conversas. Contava-se que vovó Jesuína, viúva nova e reservada, era proprietária de uma gleba em terras devolutas nas proximidades do rio Figueirão, gado criado na larga, aves, porcos e tropa de montaria no piquete. Certa vez, pousou em sua residência um boiadeiro jovem e elegante, procedente de Barretos. Conversa vai, conversa vem, e de repente nasceu entre os dois ali a sós, iluminados por um romântico luar cor de prata, uma paixão improvisada. A noite foi curta e maravilhosa para o casal apaixonado. As delícias núpcias aconteceram entre quatro paredes de barrotes, sobre um catre de cedro, a luz fosca duma candeia e um fundo musical vindo das matas virgens, entoado pelos animais noturnos.Para ela aceitar este momento, ele prometeu-lhe que dali a seis meses voltaria para a festa oficial do casamento e levá-la consigo. A rapaziada ficou sabendo e fez com a pobre viúva uma brincadeira de mau gosto. Todo mês entregava-lhe uma carta falsa enviada pelo boiadeiro. Quando faltava uma semana para data marcada, a viúva convocou a vizinhança e começaram os preparativos: mataram vaca, porcos, assaram bolos e fizeram doces. Vovó Jesuína não cabia mais dentro da casa de tanta alegria, sorria até dos latidos dos cães sarnentos. No dia combinado foram chegando os convidados, deixaram os fogos no jeito e construíram um enorme arco de taboca, em frente do empalizado, para os noivos passarem e enfeitaram-o com rosas, jasmins e primavera. Tibebeco dizia que nem na festa de agosto havia uma fartura como aquela. Beberam, comeram e dançaram durante dois dias e duas noites. Jamais o boiadeiro apareceu para unir-se ao grande amor que ele deixou lhe esperando no Sertão de Figueirão.
Admar de Araújo.
Historiador figueirãoense.









