Em MS, 54 grupos orientam sobre como manter-se sóbrio
Por 10 minutos, eles podem se sentar à cabeceira da mesa e desabafar sobre a vida de dependência que têm levado. Falar diante de pessoas que enfrentam o mesmo problema e de integrantes de um grupo que ali está para ajudar, faz com que acreditem ser possível ficar longe do álcool.
“Muitas histórias marcantes. Gente que perdeu o emprego, a família, a dignidade para viver. Gente que quer voltar a trabalhar e a ter amigos, mas que, quando fala que é um ex-alcoólatra, não é aceito”, conta Marcio (que preferiu não revelar mais do que o primeiro nome), voluntário há 13 anos no Grupo São Paulo de Alcoólicos Anônimos (A. A.), o mais antigo de Campo Grande.
O grupo presta apoio aos alcoólatras há 45 anos. Os encontros se fixaram nas segundas, terças e quartas-feiras à noite, na Paróquia São Francisco de Assis. A igreja não impõe que os participantes ouçam ensinamentos religiosos, apenas empresta o espaço e apoia a finalidade do projeto.
De 20 a 25 pessoas aparecem a cada reunião, procurando alguma forma de reverter o estrago que a bebida provocou no organismo, na vida financeira e nas relações familiares e sociais.
A metodologia sugerida para derrubar a abstinência e manter sóbrios os atendidos é a mesma utilizada nos demais A.A.s em todo o mundo. Ela constitui-se em doze passos – utilizados desde que a primeira irmandade do grupo foi criada, há 83 anos, nos Estados Unidos. Todas as comunidades ligadas à causa podem informar quais são eles e ajudar a colocá-los em prática.
Mato Grosso do Sul tem 54 grupos do A.A. Só a Capital tem 17. Para participar, não é preciso pagar. Basta se apresentar e ter dado o passo mais importante: reconhecer-se alcoólatra.
MAIS JOVENS
É cada vez mais comum ver jovens chegando às reuniões, afirma Marcio. “De 20 e poucos anos. Eles acabam se misturando aos senhores e senhoras que já atendemos”. Quanto ao gênero predominante entre os participantes das reuniões, é o masculino, também segundo o voluntário. “Antigamente, os homens eram a grande maioria. Hoje, continuam em maior número, mas já vemos mais mulheres do que antes em busca de ajuda”.
Incontável número de pessoas, de todos os perfis, já foram auxiliadas pela irmandade. “Dependentes de diversas idades, ricos e pobres. Não consigo distinguir um perfil específico, é muito mesclado”, conclui.
ALÉM DAS REUNIÕES
O A.A. não se resume aos encontros para conversar sobre a dependência. Os voluntários visitam escolas para falar sobre o problema, vão até hospitais que realizam desintoxicação química em Campo Grande para falar com pacientes, e promovem eventos intergrupais para traçarem um panorama dos atendimentos e estudarem o alcoolismo.
Marcio calcula que em torno de 500 pessoas tenham passado somente pelo Grupo São Paulo nos últimos 10 anos. Não dá para dizer quanto tempo de frequência, em média, é necessário para a recuperação. “A participação é muito rotativa. Tem quem apareça durante um mês e volte três meses depois. Tem quem se torne um integrante fixo”.
Pessoas mais ativas no grupo ganham uma ficha de acompanhamento. A elas, Marcio confia o próprio número de telefone para ligarem quando sentirem que a recaída está próxima.
O sucesso do tratamento oferecido depende muito do esforço individual. “Acompanhamos pessoas que se recuperaram e estamos sempre abertos àquelas que desistiram, momentaneamente, mas querem tentar outras vezes”, finaliza o voluntário.
DOENÇA CRÔNICA
Do ponto de vista médico, o alcoolismo é uma doença crônica que se manifesta progressivamente. Primeiro, o afetado torna-se cada vez mais resistente aos sintomas provocados pelo consumo da bebida etílica; depois, apresenta tolerância à intoxicação produzida pela droga; por fim, desenvolve sintomas de abstinência, quando a mesma é retirada, como tremores, distúrbios de percepção, convulsões e delirium tremens.
Uma vez que a dependência se manifesta, não há cura, apenas é possível manter-se “limpo”. Quem é afetado precisa estar sempre vigilante e preferir a sobriedade. É recomendado passar por uma desintoxicação e iniciar tratamento com psiquiatras e psicólogos, o quanto antes. Esses serviços podem ser encontrados em hospitais da rede particular e pública de Campo Grande.
CAPS ALCOÓL E DROGA
Tanto a desintoxicação quanto as consultas e, ainda, terapias, são oferecidas pelo Centro de Atendimento Psicossocial Álcool e Droga (Caps/AD), que não exige encaminhamento médico e atende em regime de plantão (24h). A unidade recebe cerca de 1 mil pessoas por mês, mas só pode oferecer leito de desintoxicação a apenas 20 delas, a cada 14 dias. “É para o caso de quem está mais vulnerável”, explica o gerente do local, Abadio Rodrigues.
Oficinas e grupos de apoio são desenvolvidos todos os dias no Caps/AD, em horários diferentes. Nelas, pacientes cadastrados – e acompanhados por fichamentos e avaliação de um profissional-guia – têm a oportunidade de realizar tratamento continuado, quase na mesma base que o oferecido pelo A.A. A diferença é que estão presentes psicólogos, técnicos de enfermagem, psiquiatras, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais para coordenar as atividades.
Entre conversas sobre projetos de vida e práticas artísticas, os dependentes químicos se conhecem e reconhecem-se em coletividade, algo essencial para a recuperação. Usuários de drogas que, muitas vezes são também alcoólatras, e os que são dependentes só do álcool, acabam se misturando.
Abadio explica que, para cada uma das pessoas atendidas, há um projeto terapêutico singular. “É um guia sobre como vai o caso de cada indivíduo, se ele está bebendo, se colocou algum projeto pessoal em execução, se tem contato com a família… Um profissional fica responsável por cada um dos casos, mas uma equipe multidisciplinar pode se reunir para discuti-lo”.
O Caps/AD fica na Rua Joaquim Murtinho, 1786, Bairro Antônio Vendas. O horário de atendimento para novos pacientes é de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h.
Por Cassia Modena
Valdemir Rezende
Valdemir Rezende









