Coxim, novembro de 2018. Em nossa vida existem passagens singulares em que ansiamos pela chegada e muitas vezes até postergamos pela certeza de sabermos que serão únicas. Pois bem, desde pequeno tive grande, senão imensurável admiração pela emblemática figura desta brava brasileira que é Antonieta Ries Coelho. Com a oportunidade da escrita através da coluna, entrei em contato com este baluarte vivo da nossa história pedindo humildemente que me recebesse, alegando que jamais poderia deixar de ouvir a sua história porque como dizia Gabriel Garcia Marquez, “a vida não é aquela que a gente vive, mas sim a que a gente lembra e vive para conta-la”. E a sua vida, de coragem e dedicação, merece ser contada e propagada…
Nascida em 13/02/1928, no município de Coxim-MS, filha do gaúcho Antônio Ries Coelho e da coxinense Eugênia Mendes Ries Coelho. Criada numa família de seis filhos, passou sua primeira infância em Coxim, mudando-se para Cuiabá aos 7 anos de idade. Seu pai, como advogado,atuou pelo município, foi delegado de Polícia e também foi promotor público do município de Corumbá. Teve importante carreira política, sendo por duas vezes deputado estadual (1921-1923 e 1924-1926), intendente geral de Coxim (1921-1923 e 1927-1929), além de chefe da polícia de Mato Grosso (1938). Foi o segundo representante coxinense na Assembleia Legislativa depois de José Bento da Silva Graça (1899) e exerceu simultaneamente os cargos de intendente geral, cargo correspondente a prefeito à época e deputado.Do apogeu ao declínio na política coxinense, pouco mais de uma década. O espaço ficou pequeno demais entre Ries Coelho e os irmãos Antônio João e João Ferreira de Albuquerque. Em sua segunda administração como intendente, foi cassado, algo inédito na administração do município e no impeachment, estando ausente para tratamento médico, sem direito à defesa, teve bens confiscados pela câmara de vereadores (presidida por Antônio João), que alegou desvio dos cofres públicos num processo relâmpago e avassalador, com duração de 24 horas, que resultou no sequestro de 250 reses da Fazenda Cabeceira de propriedade de Ries Coelho e na sua cassação, ocorrida em 07 de junho de 1928, comprovando os desmandos de um grupo político e consolidando uma oligarquia que perduraria por muitos anos em nosso município.

Conta com entusiasmo e inocência a primeira vez que vislumbrou luz elétrica, chegando em Corumbá, na lancha do Atala (pai de Irene Havala, esposa de Silvio Ferreira), um turco que fazia o trajeto. “Viemos de lancha pelo Rio Taquari, parávamos todas as noites para descansar, a viagem durou mais de um mês até Cuiabá. Em Corumbá fiquei encantada ao ver aquelas luzes. Perguntei a minha mãe o que eram, quando ela me respondeu seremeletricidade. Seguimos então a Corumbá deixando o Atala com destino a Cuiabá.”
Em Cuiabá estudou o Primário no Grupo Escolar Barão de Melgaço e o Ginásio no Colégio Estadual. Seu primeiro emprego, aos 18 anos, foi como secretária no Departamento Estadual de Estatísticas. Dois anos depois, foi promovida à inspetora regional, no IBGE e logo depois, foi para a Comissão de Estradas e Rodagem, responsável por asfaltar o estado.
As idas e vindas a Coxim continuariam, porém cada vez mais escassas. Um de seus irmãos, Gaspar, fazia curso técnico de agronomia em Viçosa-MG e havia atuado em serviços topográficos durante a gestão do pai em Coxim entre 1927-1929 aprendendo os ossos do ofício com o agrimensor local. Em 1949, durante as férias escolares de Gaspar e período da festa do Divino Espírito Santo em Coxim, enfrentando sérias restrições da família Ferreira, Gaspar começou um romance com Edith, filha do coronel João Ferreira, antigo algoz, e abandonou os estudos. O local de encontro era o córrego São Francisco. A restrição virou proibição e não havendo outra alternativa, decidiram se casar da noite para o dia. O casamento foi realizado por dona Antonieta na casa dos Ries Coelho e estiveram presentes os amigos mais próximos. No outro dia bateu à porta Silvio, o primogênito dos Ferreira, à procura da irmã, a quem dona Antonieta respondeu que ali estava, havia se casado e os noivos consumavam lua-de-mel no recinto, sendo o casamento um fato. Silvio foi a pedido de seu pai, bastante constrangido, e concordou com Antonieta que era melhor assim, seguindo à sua residência para comunicar o ocorrido.

Presenciou em 21 de novembro de 1952 o assassinato brutal do então prefeito de Campo Grande, dr. Ari Coelho de Oliveira por Acir Pereira Lima. O crime esteve ligado a grandes negociatas de terras promovidas por Acir e seu irmão Arquimedes que tornaram-se ricos da noite para o dia em parceria com grileiros agindo no Alto Xingu por meio da Fundação Brasil Central,acumpliciados ao governo do estado, vendendo terras de propriedade de dezenas de tribos indígenas através de negócios ilícitos empregando bandos armados e espalhando o terror entre os habitantes da região. Dr. Ari Coelho, passou a denunciá-los através de seu Jornal “O Matogrossense”. Em 1955, seu destaque como funcionária foi tamanho que chamou a atenção da Camargo Corrêa, com sede em São Paulo, e passou a trabalhar diretamente com o dono, Sebastião Camargo, na função de secretária.

O trabalho com a Camargo Corrêa duraria apenas dois anos, pois seu irmão Antônio, de apenas 17 anos, teria um acidente vascular encefálico (AVE) o que a levou a mudar-se com ele e sua família para o Rio de Janeiro. Problemas cardíacos seriam uma sina que perseguiriam os Ries Coelho com o passar dos anos. Gaspar, seu outro irmão, faleceu em 1969 de infarto do miocárdio aos 44 anos, na Fazenda Lambari, em Coxim.

No Rio empregou-se na Livraria e Editora Martins, que detinha exclusividade das obras de Jorge Amado e também havia publicado “Memórias de um Sargento de Milícias” de Manuel Antônio de Almeida e “Iracema”, e José de Alencar”.
Em 1964, ano de chumbo, recebeu inesperadamente um telefonema do sr. Ueze Zahran com um pedido – que acompanhasse a documentação de um canal de televisão que o grupo havia requerido para Campo Grande no então Conselho Nacional de Telecomunicações (CONTEL), algo equivalente ao Ministério das Comunicações nos dias atuais. Na oportunidade, Dona Antonieta indagou aos irmãos se o pedido contemplaria Cuiabá, cidade do seu coração, no qual não encontrou resposta imediata. Conta-nos Evaldo de Barros, no Especial para o Diário de Cuiabá, que Dona Antonieta disse: “No dia seguinte, cedo, recebi novo telefone do Sr. Ueze, dizendo que havia consultado o irmão mais velho, Sr. Eduardo, que chefiava o Grupo, e ele havia respondido que não havia mais ninguém em Cuiabá para dirigir os trabalhos necessários, mas que se eu aceitasse voltar para lá e vender uma cota de 1.500 aparelhos de TV, poderia requerer a TV para Cuiabá.”
Sem saber nada sobre televisão, Dona Antonieta aceita o desafio e bate o requerimento junto ao CONTEL, pedindo a concessão do canal de TV para a Cuiabá com o nome de TV Centro América, pois a capital de Mato Grosso é o centro geodésico da América do Sul.Quem ajudou-a na escolha do nome foi seu irmão Antônio. Os Zahran conseguiram superar até mesmo Assis Chateaubriand que na época possuía um império de comunicação no país e a concessão seria ou de Chateaubriand ou de Eduardo, mas Eduardo conseguiu. Zahran recebeu o apoio do major Afrânio Figueiredo, filho do ex-governador do Estado Arnaldo Estevão de Figueiredo, fator fundamental para alcançar a permissão da televisão.

Em dezembro de 1965 inicia seus trabalhos como diretora da TV Morena de Campo Grande, colocando-a no ar, sendo quem primeiro deu as boas-vindas aos telespectadores. Permaneceu ali por um ano.
Em dezembro de 1966 dirigiu-se a Cuiabá e no início de 1967 registrou a Sociedade Mercantil Zahran Ltda para vender uma cota de 1500 televisores. Até então muitos nem sabiam que a TV seria instalada em Cuiabá e a cidade sequer possuía uma torre de transmissão. Os costumes cuiabanos eram os passeios (praça da República e Alencastro), cinemas e rádio. A TV chegou ao Brasil em 1950 com a inauguração da Tupi em São Paulo, por Assis Chateabriand, representando um fator importante na cultura popular da sociedade brasileira, não sendo diferente para o povo cuiabano. O exemplo bem-sucedido de Campo Grande e a famosa rivalidade inspirou credibilidade ao investimento e empreitada que se avizinhariam.
Dona Antonieta fechou a compra do terreno para a emissora e contratou a firma CIVELETRO para a construção da sede da TV; imprimiu blocos com contratos que as pessoas assinavam comprometendo-se a comprar da firma um televisor, que seria entregue somente quando estivesse quase em condições de entrar no ar. Em menos de um ano foram vendidos 1283 aparelhos das marcas Philco e Michigan. Em 6 de novembro de 1967, com a presença de autoridades políticas e líderes religiosos, foi realizada numa sala emprestada do Hospital Santa Helena a primeira transmissão da TV Centro América de Cuiabá. A implantação definitiva só seria realizada se houvesse engajamento da população, porém a experimentação impulsionou as vendas. O prédio ficou pronto em 1968.

As transmissões em caráter experimental começavam às 17 horas e finalizavam às 10 horas, envolvendo programação ao vivo, desenhos animados e orações. Em 13 de fevereiro de 1969dia do aniversário de dona Antonieta, foi inaugurada oficialmente a TV Centro América – Canal 4 de Cuiabá, com muita festa, imagem ainda em preto e branco. Como já havia acontecido em Campo Grande, também em Cuiabá a primeira pessoa a dar as boas-vindas aos telespectadores foi Dona Antonieta, sendo sua primeira diretora.

Em 1970, após uma cooperação entre a EMBRATEL e técnicos americanos foi realizada a primeira transmissão da TV Centro América a cores – a Copa do Mundo de Futebol da Alemanha. O fato envolveu grande esforço. Dona Antonieta continuou na direção da TV Centro América até julho de 1974, tendo conquistado o carinho e o crédito da população cuiabana.
Após deixar o cargo, abriu uma floricultura, pioneira na região, com o nome de “Flor do Campo”. Jamais deixou de empreender durante os anos seguintes. Morou muitos anos no Rio de Janeiro, mas quisera o destino (e a violência dos grandes centros) que regressasse no começo da década a Coxim – sua terra natal, onde reencontrou parentes, aconchego e fez grandes amigos e admiradores. Sua personalidade progressista, sempre em busca de melhorias, fez com que empreendesse junto à comunidade católica uma reforma na Igreja Matriz para que a mesma dispusesse de sistema de ar-condicionado, trazendo mais conforto aos fieis. Atuou em diversos grupos, como “Melhor Idade”, “Formação de lideranças jovens”, dentre outros, e sua casa sempre esteve aberta à comunidade e aos amigos. Quisera o destino que, por questões de saúde, Dona Antonieta se mudasse de Coxim para Campo Grande, onde passou a residir com sua prima, Dona Preta. Os anos passados em sua terra natal são lembrados com muita saudade e seu maior prazer é receber os amigos, especialmente os conterrâneos. Recebeu e recebe diversas homenagens, tanto em Mato Grosso, quanto em Mato Grosso do Sul, de universidades, assembleia legislativa, câmaras, prefeituras, jornais.

Dona Antonieta, a mulher coxinense que trouxe a TV para Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, deixa um conselho aos seus patrícios, especialmente aos coxinenses: “tenham coragem”.
“A coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras”. Aristóteles.

Referências Bibliográficas
Barros, Evaldo. http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=443588Diário de Cuiabá. Em 15/12/2013. “Antonieta Ries Coelho A criadora da televisão em Cuiabá está recolhida em Coxim sua terra natal”. Acesso em: 08/11/2018.
Barros, Lidiane. https://olivre.com.br/gosta-de-ver-tv-agradeca-a-este-pioneiro-que-instalou-a-primeira-em-cuiaba/O Livre. Em 16/09/2018. “Gosta de ver TV? Agradeça a este pioneiro que instalou a primeira em Cuiabá”. Acesso em: 08/11/2018.
Borges, Fernanda. https://www.al.mt.gov.br/midia/texto/al-participa-de-homenagem-a-antonieta-ries-coelho/visualizar Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso. Em 09/08/2007. “AL participa de homenagem a Antonieta Ries Coelho”. Acesso em: 08/11/2018.
Brazil, Luciana. https://www.campograndenews.com.br/lado-b/artes/livro-desvenda-eduardo-elias-zahran-nome-de-rua-e-um-dos-idealizadores-do-grupo Campo Grande News. Em 22/06/2012. “Livro desvenda Eduardo Elias Zahran, nome de rua e um dos idealizadores do grupo”. Acesso em: 25/11/2018.
Ferreira Neto, João. Raízes de Coxim. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 2004.
http://portalmatogrosso.com.br/municipios/matopedia/coelho-antonieta-ries/31765 Portal Mato Grosso. Verbetes. COELHO (Antonieta Ries). Acesso em: 08/11/2018.
http://datasefatoshistoricos.blogspot.com/2016/11/assassinado-o-prefeito-ari-coelho-de.html Datas e Fatos Históricos. Em 21/11/2016. “1952 – Assassinado o prefeito Ari Coelho de Oliveira”. Acesso em: 21/11/2018.
https://www.almanaquecuiaba.com.br/artigo/a-mulher-que-inaugurou-a-tv-centro-america Almanaque Cuyabá de Cultura Popular. “A Mulher que inaugurou a TV Centro América”. Acesso em:: 08/11/2018.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_televis%C3%A3o_no_Brasil. História da televisão no Brasil. Acesso em 21/11/2018.
Silveira, Ronan Garcia da, História de Coxim / Ronan Garcia da Silveira – Campo Grande: Editora Ruy Barbosa, 1995. 376p.
Sobre o autor:
Fernando Henrique Fontoura
Escreve no Coxim Agora
Médico, escritor (crônicas e história regional), genealogista da Família Fontoura, apaixonado por cães, chamamé e por Coxim (um pouquinho menos do que o Tio Ica e o Dr. João Olegário).
Contato: [email protected]
Fernando Henrique Fontoura
coximagora.com.br








