“E assim ela se foi/nem de mim se despediu”. Nunca os versos célebres de Mário Zan e Arlindo Pinto fizeram sentido para tanta gente ao mesmo tempo. O corpo estava frágil já há algum tempo.
Além de todo o pesadelo da pandemia, Delanira Pereira Gonçalves, após a queda depois de um show no mês de outubro, vinha enfrentando crises respiratórias e outros problemas de saúde.
Na madrugada de ontem, enquanto dormia em casa, Delanira, nome de batismo da cantora Delinha, não resistiu e faleceu, aos 85 anos, em decorrência de uma pneumonia crônica, deixando sem chão a imensa comunidade de fãs e amigos que a artista conquistou em sete décadas de carreira.
Após o velório, que atraiu uma pequena multidão à Câmara Municipal de Campo Grande, o caixão seguiu em cortejo para o Cemitério Jardim da Paz, onde foi realizado o sepultamento, no fim da tarde desta quinta-feira.
Ao longo de todo o dia, presencialmente, nas redes sociais e em entrevista ao Correio do Estado, diversas personalidades deram testemunhos emocionados sobre aquela que é considerada a embaixadora da música sul-mato-grossense.
Durante a década de 1950, ainda no tempo em que ser mulher poderia significar uma barreira intransponível para a carreira artística, Delinha despontou no cenário musical, em dupla com o primo Délio, e não parou de fazer história.
PIONEIRA
Pioneira na gravação de discos e no sucesso retumbante, a dona de sucessos como “Amor Inesquecível”, “Caçando nos Pantanais”, “O Sol e a Lua”, “Coisinha Querida”, “Louvor a São João” e muitos outros tinha um canto nostálgico e doído que casava como luva com a voz do parceiro Délio, falecido em 2010, com quem também durante muito tempo foi casada.
Dona na interpretação e também na autoria das composições. Sim, sempre a quatro mãos com o companheiro de dupla e de vida, Delinha foi uma compositora de mão cheia.
Quem a conheceu de perto destaca a generosidade da artista, que parecia ter o coração do tamanho do sorriso que enterneceu gerações seguidas.
BRILHANTE
“Vamos sentir muita saudade, muita falta da Delinha”, declara o pianista Evandro Higa. “Porque ela representa uma geração de músicos de Mato Grosso do Sul que são presentes na memória afetiva, na cultura do Estado, e que praticam uma música que tem as cores e todas as marcas da fronteira com o Paraguai”, afirma o músico, que também é professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e autor de “Para Fazer Chorar” (2019), livro que investiga as raízes paraguaias da expressão musical na região de fronteira.
“Realmente, além de ter uma carreira brilhante e uma discografia enorme, ela tem um carisma, e isso vai continuar. Ainda bem que a gente tem os registros desse legado enorme que a Delinha deixa para a cultura e para a música de Mato Grosso do Sul”, reconhece Higa.
MUSA
“Ela é uma musa que jamais será esquecida e uma grande irmã para nós duas”, diz a colega de ofício Betinha, também bastante conhecida pela carreira musical ao lado da irmã de sangue Beth.
As princesinhas formaram a primeira dupla sertaneja feminina, na segunda metade dos anos 1960, quando Delinha já estava na estrada. “Nos conhecemos há mais de 50 anos, não lembro dia, hora e local, mas lembro que ela sempre foi maravilhosa”, desmancha-se Betinha, com a voz embargada.
ESCOLA DE VIDA
A cineasta Marinete Pinheiro, que lançou em 2018 o longa-metragem documental “A Dama do Rasqueado”, que enfoca a trajetória de Delinha e apresenta a artista ao lado de uma série de convidados, afirma que a cantora foi uma escola de vida.
“Mais que um filme, fiz uma linda amizade, e minha relação é de amor por ela. A aproximação, as visitas, inclusive sem câmera, foram momentos marcantes, que não estão no filme, mas eternizados na memória. Demorei três anos para fazer o filme, porque foi um processo pessoal difícil e de muita responsabilidade contar a história dessa que é o maior nome feminino da música de Mato Grosso do Sul”, diz Marinete.
“Vai fazer muita falta como artista, amiga e grande ídolo. O lugar cativo dela na velha casinha, onde sentávamos para tomar um café, agora fica ocupado pela saudade”, emociona-se a diretora.
EMBAIXADORA
Radialista e produtor musical, Rogério Zanetti diz que não é à toa que Delinha tem o título de embaixadora da música regional sul-mato-grossense.
“Ela realmente foi a embaixadora, em todos os sentidos. No fim dos anos 1950, quando partiu com o Délio para São Paulo para gravar o seu primeiro trabalho, fez com tanta competência e gerou tanto sucesso que ocasionou em um programa de rádio diário que eles tinham. Isso ajudou muito a difundir a música regional e a música sertaneja como um todo em São Paulo”, afirma.
O produtor conta que, com o sucesso, a dupla Délio & Delinha passou a recrutar artistas locais para as gravações fora do Estado. “No segundo disco, ela já levou o mítico sanfoneiro Zé Correia. Depois de uma queda de braço com o produtor do disco, ele acabou tocando e ele próprio depois voltou para gravar o próprio disco e já levou Amambai e Amambaí”, diz Zanetti.
MAIS CACHÊ
“De Zé Correia a Tostão & Guarani, todos tiveram uma grande força da Delinha para produzir seus trabalhos, inclusive fora do Estado. O Tostão conta que, na gravação do seu primeiro disco, ele era muito jovem e, dentro do estúdio, só conseguiu porque a Delinha segurava em sua mão. Então, trata-se de uma artista muito generosa, que vai levar esse título por toda a eternidade”, conta o produtor.
“Esse respeito, o público compreendeu e soube dar a ela. Acho que faltou um reconhecimento financeiro das pessoas que a contratavam para pagar um cachê mais à altura da representatividade dela, mas isso não a deixou infeliz”, avalia o músico Tostão.
Delinha deixa um filho, João Paulo Pompeu. “Ela está com Deus e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro”, declarou Pompeu. (Colaborou Alison Silva)
MARCOS PIERRY
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