Uma discussão de bar que terminou em morte – tempo de eleições presidenciais
Coxim, 1960. A história não é prisioneira do tempo. Nós, contadores de histórias, sempre precisamos voltar no tempo através de um ponto de partida, compreendendo as origens de uma determinada situação e analisando-a de acordo com crenças, costumes e culturas.
O fato que contarei hoje permeou toda minha infância e passou-se num período de muita turbulência política. Em respeito as famílias envolvidas, alguns nomes foram preservados. Vale salientar que um fato tem versões distintas… os ventos que maneiam o tempo assopraram-me desta forma, provavelmente existem outras.
O Brasil, desde a sua abertura política, sempre foi um país polarizado. A saída de Dom Pedro I do poder e o período regencial permitiu que brasileiros ganhassem espaço na vida pública com a formação dos primeiros partidos políticos que ofereciam diferentes projetos de condução da vida política nacional: os partidos Liberal e Conservador.
O período foi marcado pelo constante embate entre eles com o imperador Dom Pedro II detendo o poder moderador. Os Conservadores pregavam um sistema político onde o governo devia agir imparcialmente garantindo a liberdade de todos os cidadãos, defendendo um governo centralizado e desejavam realizações de progresso. Os Liberais pregavam a liberdade das províncias, com um governo parlamentar mais aprimorado e a abdicação do poder moderador, desejando a abolição da escravatura e a eleição bienal dos deputados. Os dois partidos não se respeitavam e nem se impunham, e cada qual possuía seu órgão de imprensa do qual se utilizavam para atacar o adversário. O Imperador mantinha-se neutro entre eles e acabava sendo alvo do fogo-cruzado, tanto é que foi deposto mesmo gozando de grande prestígio popular.
A Charge acima, de Cândido de Faria, para o jornal O Mequetrefe, de 1878, mostra D. Pedro II sustentando cavalinhos montados pelos partidos Liberal e Conservador: diplomacia no carrossel.
Posteriormente tivemos mantida esta polarização: paulistas e mineiros na República Velha, ditadura com Vargas no Estado Novo, PSD e UDN na Quarta República (1945-1964), Arena e MDB na Quinta República (1965-1979), com surgimento de novos partidos e de um pseudo-pluripartidarismo a partir de 1979, sendo que atualmente existem 35 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral.
Em 1960, anunciavam-se as eleições presidenciais para a sucessão de Juscelino Kubitschek de Oliveira (JK). O mineiro de Diamantina construiu Brasília e foi o primeiro presidente civil desde Artur Bernardes a concluir seu mandato. Fez um governo pautado na industrialização, tendo como carro-chefe o setor automobilístico, mas também foi responsável por um forte aumento da dívida pública e da inflação. Foi acusado diversas vezes de corrupção, com sérios indícios de superfaturamento de obras e favorecimento de empreiteiros ligados a seu grupo político.

Para a sua sucessão, marcada para realizar-se em 03 de outubro de 1960, presidente e vice-presidente seriam eleitos de forma separada e analfabetos ainda eram proibidos de votar seguindo a última constituição vigente. Como candidato governista, PSD e PTB lançaram o Marechal Henrique Teixeira Lott. Em contrapartida a UDN através do nanico PTN e com apoio do PTB lançaram o populista Jânio Quadros ao governo. O PSP lançou novamente Adhemar de Barros, numa terceira via.

Marechal Lott notabilizou-se por garantir a posse anos antes de JK, tendo sido também seu ministro de Guerra. Era legalista, democrata e teve uma campanha bastante profissional. Por outro lado, o mato-grossense Jânio Quadros teve uma ascensão política meteórica, chegando de vereador de São Paulo à presidente da república em poucos anos. Era extremamente dramático e conquistava o eleitorado prometendo combater a corrupção “varrendo toda a sujeira da administração pública”. Seu símbolo era uma vassoura.

A pacata Coxim contava com 12.592 habitantes e tinha como prefeito o Sr. Alaor Garcia da Silveira. O país incendiava-se por política e na Coxim do então Mato Grosso não seria diferente. Os principais líderes políticos estaduais eram Filinto Muller (PSD) e Fernando Corrêa da Costa (UDN) que concorreram ao governo do estado em turno único. Em 1958 houveram eleições parlamentares e estiveram em jogo 30 cadeiras na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, sendo treze para a UDN, onze para o PSD, quatro para o PTB e duas para o PSP. Na Assembleia Legislativa representava Coxim o deputado Nelson Mendes Fontoura e na Câmara dos Deputados, Philadelpho Garcia.

Na atual rua Senador Filinto Muller onde hoje encontra-se instalada as Casas Pernambucanas funcionava o Bar São Pedro. Antes de ser Bar São Pedro, foi Bar do Kid. Seu antigo proprietário havia sido o sr. Euclides Costa (Kid) e ali fora servido o primeiro sorvete da história de Coxim. Posteriormente, o proprietário decidiu vender o bar para seu primo, Pedro Mendes Fontoura Filho (Pedro Peró Filho), que sendo pecuarista, decidiu passar a administração para um cunhado seu, que ali instalou-se com sua família (esposa e filho). O Bar funcionava como parada de ônibus, funcionando assim como uma espécie de rodoviária da cidade. Pela localização, era ponto de encontro de transeuntes, viajantes, moradores, que paravam para prosa, música, birita, engraxe de sapatos e embarque/desembarque. Fazia grande sucesso o LP “Gostava Tanto de Você”, de Délio & Delinha com participação de Zé Corrêa. E à época não podia haver assunto predileto senão política.

Certo dia, após extensa jornada de trabalho, um engenheiro civil do DER, há alguns anos na cidade instalado e já muito querido pela população decide por ali passar, como era de seu costume, para “tomar um trago”. Senta-se no balcão e pergunta ao administrador do bar:
– Em quem o senhor irá votar?
E ele assim o responde:
– Meu voto é de Jânio Quadros.
Recebe então a seguinte ofensa:
– Por isto é que o senhor é um palhaço de balcão!
Ao ouvir tal ofensa, o senhor desferiu um golpe na face do engenheiro e todos que ali estavam ficaram apreensivos. Por gozar de grande estima da população e ocupar posição social de destaque, o engenheiro recebeu apoio, tanto que o trabalhador foi segurado enquanto o engenheiro foi buscar sua arma no intuito de alvejar aquele. Ao apanhar a arma o engenheiro desferiu 3 tiros, sendo que um atingiu de raspão o braço do senhor que trabalhava no bar. Porém, não contavam que o mesmo também tinha uma arma guardada sobre o balcão. Num lance de descuido dos rapazes que o seguravam, o mesmo desvencilhou-se e conseguiu apanhá-la e num único tirou alvejou o engenheiro, num golpe fatal. Para não ser linchado pela população local, saiu pelos fundos do bar e fugiu do recinto.
A revolta foi tão grande e a busca por “justiça” tão intensa que foi necessária interdição da ponte pelo juiz da época, Dr. Otair da Cruz Bandeira. O episódio acabou servindo de munição para acirrar ainda mais a rivalidade dos partidários locais. Era tempo de Festa do Divino do Espírito Santo e o proprietário do bar, Pedro Peró Filho, festeiro daquele ano, achou por bem transferir à responsabilidade da festa à sua irmã Maria Cândida (Neguinha).
Duas famílias tiveram suas vidas marcadas por este evento, uma existência foi ceifada de forma irreparável num lance em que foi alegada legítima defesa, como assim entendeu a justiça. A família do administrador do bar achou por bem deixar para sempre a cidade de Coxim; passados anos, seu filhinho pequeno tornou-se um dos homens mais destacados do estado incorporando-se ao Instituto Rio Branco como renomado diplomata de carreira.
Jânio Quadros elegeu-se aquele ano como presidente da República obtendo recorde de votos, vencendo em 16 dos 26 estados. Governaria por apenas sete meses, renunciando em 25 de agosto de 1961, atribuindo o motivo a “forças ocultas”. Em Mato Grosso venceria a UDN de Fernando Corrêa da Costa, numa derrota jamais esquecida por Filinto Muller. As eleições de 1960 foram as últimas antes do Golpe Militar de 1964; a próxima eleição presidencial direta ocorreria apenas 29 anos depois.

As eleições presidenciais de 1960 e 1989 guardam uma semelhança bastante perversa com as de 2018, pois em todas elas encontramos um país fragilizado democraticamente e com candidatos que apresentaram-se como pretensos heróis da Pátria, redentores da ética e da limpeza política, mas que a história mostra que levaram-nos ao desastre afundando o país no isolamento e ruína. Não podemos nos esquecer que líderes fascistas e nazistas da história foram originalmente eleitos na promessa de resgatar a autoestima e a credibilidade de suas nações, antes de subordiná-las aos mais variados desmandos autoritários.
Portanto, rebusco em minha memória este triste fato ocorrido traçando uma linha com os acontecimentos contemporâneos que assolam o nosso país, parafraseando meu professor de história que sempre iniciava suas aulas com o seguinte ditado: “é preciso conhecer o passado, para viver o presente e construir o futuro”.
Referências Bibliográficas
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http://odiarioimperial.blogspot.com/2015/06/o-poder-moderador-eficaz-e-paternal.html O poder moderador, eficaz e paternal. Acesso em: 23/09/2018.
http://parquetematicodopantanal.com.br/coxim/camara-municipal-de-coxim/camara-municipal-de-coxim-desde-a-eleicao-de-1899/ Câmara Municipal de Coxim desde a eleição de 1899. Acesso em: 23/09/2018.
http://www.portalmatogrosso.com.br/assembleia-legislativa/todas-as-legislaturas/4-legislatura-e-mesas-diretoras-1959-1963/1138 Assembleia Legislativa de Mato Grosso. 4ª Legislatura e Mesas Diretoras 1959-1963. Acesso em: 23/09/2018.
http://www.tse.jus.br/partidos/partidos-politicos/registrados-no-tse Partidos políticos registrados no TSE. Acesso em: 23/09/2018.
https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,os-principais-partidos-politicos-na-historia-brasileira,632210 O Estado de São Paulo. 30 de outubro de 2010. Os Principais Partidos Políticos Na História Brasileira. Acesso em: 23/09/2018.
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https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%B5es_estaduais_em_Mato_Grosso_em_1958 Eleições estaduais em Mato Grosso em 1958. Acesso em: 23/09/2018.
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Martins, Ulisses. http://educacao.globo.com/historia/assunto/imperio-brasileiro/segundo-reinado-1840-1889.html Segundo Reinado (1840-1889). Acesso em: 23/09/2018.
Sobre o autor:
Fernando Henrique Fontoura
Escreve aos domingos no Coxim Agora
Médico, escritor (crônicas e história regional), genealogista da Família Fontoura, apaixonado por cães, chamamé e por Coxim (um pouquinho menos do que o Tio Ica e o Dr. João Olegário).
Fernando Henrique Fontoura
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